Paul Gauguin - The Agony in the Garden.j

Jardim das oliveiras:
a confiança renasce

2ª etapa

Ao longo da história do Antigo Testamento, Deus nunca desiste da família humana, ainda que, a cada pecado, o ser humano desista de Deus. E quando assim o entende, Deus toma a carne humana para reestabelecer, de uma vez por todas, o ambiente de confiança absoluta que tinha sido perdido, a ponte duradoira entre Ele e a humanidade – é essa a missão de Jesus. Com efeito, a fim de redimir o homem e o mundo, Jesus restaura o núcleo fundamental da criação, isto é, a confiança que havia morrido no Éden. E fá-lo por meio da obediência humilde e cheia de amor que marca toda a sua vida neste mundo, desde o Natal à Ascensão.

É a este propósito que Paulo recorda, na Carta aos Filipenses, um hino já cantado pelos cristãos dos primeiros tempos:

 

Cristo Jesus, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz. Por isso Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes, para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem no céu, na terra e nos abismos, e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.

– Filipenses 2, 5-9

 

A obediência de Cristo reparou os estragos causados à humanidade e ao mundo pela desobediência do pecado original. E foi a confiança inabalável de Cristo ao Pai que consumou tudo isto.

Jesus sob ataque

Verdadeiro Deus e verdadeiro homem, Jesus experimentou a tentação, tal como cada um de nós, e foi «atacado» pelo demónio, tal como cada um de nós, sempre no sentido de pôr em causa a sua confiança no Pai. No início da sua vida pública, Jesus vive a sua Quaresma, passando quarenta dias no deserto, para onde o Espírito o impelira, propositadamente – assim sugerem os textos bíblicos – para ser tentado (cf. Mt 4, 1).

 

Nesse contexto, o demónio tenta persuadir Jesus a seguir um caminho diferente daquele que o Pai lhe propusera, procurando confundi-lo por meio das mesmas mentiras com que tantas vezes nós nos deixamos confundir.

☞ Tentando-o a transformar as pedras em pão, o diabo procura fazer que Jesus ponha o dom recebido do Pai ao serviço de si próprio, egocentricamente.

☞ Tentando-o a saltar do pináculo do templo sem que isso lhe causase dano, o diabo procura fazer que Jesus obtenha aprovação e louvor, não por meio amor dado e pela oblação pessoal, mas pela força e pela manipulação.

☞ Tentando-o a ser senhor do mundo em troca de se prostrar diante de Satanás, este procura fazer que Jesus se aproprie de um domínio terreno em vez de construir o Reino dos Céus.

No entanto, em nenhum destes ataques o demónio sai vitorioso: Jesus recusa cortar com a confiança que tem no Pai e na vontade do Pai. E, assim, «o demónio afasta-se por um tempo» (Lc 4, 13).

E ainda outro ataque

Este «por um tempo» chegou ao fim em Quinta-feira Santa, no momento em que Jesus, depois da Última Ceia, se dirigiu ao Jardim das Oliveiras para rezar. Na véspera da sua paixão e da sua morte, Jesus vê-se uma vez mais sob ataque: e aqui o diabo muda as suas tácticas, tal como faz connosco: na tentativa de persuadir Jesus a abandonar a vontade do Pai, Satanás não investe com ilusões e mentiras, mas com dor, medo e sofrimento. No Gethsémani, Jesus experimenta a dor moral que vem da culpa do pecado.

É certo que Jesus nunca pecou, mas no Monte das Oliveiras Ele toma sobre si todo o pecado humano, ao ponto de Paulo se referir a este dia com a fórmula talvez mais perturbadora de toda a Bíblia: «aquele que não havia conhecido o pecado, Deus fê-lo pecado por nós» (2 Cor 5, 21). Na montanha russa interior que o faz suar sangue, Jesus traz a si todo o pecado desde o Éden e todas as rejeiçoes e traições e menosprezos que havia de sofrer iminentemente, sendo abandonado pelos seus, e pelos tempos futuros, até aos nossos pecados de hoje.

Os Evangelhos dizem-nos que Jesus começou a sentir mágoa e perturbação, tribulação e agonia (Mt 26, 37-38; Mc 14, 33-34, Lc 22, 44), de tal modo intensas que o levam a pedir: «Pai, afasta de mim este cálice» (Mt 26, 39).

a vitória da confiança

Estaria a nova táctica do diabo a suceder? Estaria Jesus no Jardim das Oliveiras prestes a abandonar a vontade do Pai, como o homem no Jardim do Éden?

Não — Mostrando que também ele experimentara o tremendo sofrimento que nos assalta a vida, Jesus revela a sua inteira humanidade. Mas, ao contrário dos homens, a sua confiança no Pai não morre. Jesus finaliza a sua oração no Gethsémani dizendo: «faça-se a tua vontade e não a minha» (Mt 26, 39).

A Paixão que se seguiria – a traição, o encarceramento, a condenação, o desprezo, a coroação de espinhos e a crucificação, incluindo o sentimento de abandono por parte do Pai – é apenas a extensão do ataque do demónio que, já em desespero, procura uma última vez quebrar a confiança de Jesus na vontade do Pai. Mas Jesus permanece fiel, até ao último suspiro, até ao momento em que na Cruz tornada Trono estabelece: «Tudo está consumado» (Jo 19, 30). 

Tempos antes, na realidade, ao ensinar-nos o Pai Nosso, mostrava-nos como a nossa peregrinação por esta terra havia de se fazer por meio do discipulado, seguindo os seus passos, unidos a Ele pela fé e pela graça, até à reconstrução da confiança perdida: «…venha a nós o Vosso reino, seja feita a vossa vontade, assim na terra como no Céu» (Mt 6, 10).

confiança e sentido da vida

Jesus é o Reino dos Céus em pessoa, é a vontade do Pai tornada vida, na terra como no Céu. É daqui que vem o sentido da vida: passar da deconfiança trágica do Éden a uma vida de comunhão com Deus, profunda e pessoal, que tem como pano de fundo a confiança, como Jesus no Gethsémani.

 

A relação com Deus, com efeito, tem como ambiente próprio a confiança. A confiança é o oxigénio que permite respirar, comunicar, abrir o peito e mover-se na vida espiritual e na luta pela santidade, porque a confiança é a «auto-estrada» do amor, é a porta da conversa completamente escancarada. A confiança, na relação com Deus, particularmente na oração, é o reconhecimento e a aceitação profunda de que Deus é Pai, de que Ele é sempre Pai e é homogeneamente Pai.

Nós temos muitas alterações de estado, mas Deus é completamente homogéneo, sempre Pai e sempre este género de Pai, totalmente confiável. Em sentido contrário, a desconfiança desfigura o rosto de Deus: a nossa desconfiança em relação a Deus desfigura-O, põe-nos a olhar para Ele não como Pai, põe-nos a olhar para Ele à nossa imagem ou à imagem de outras realidades menores que temos.

Sem a confiança muitas dimensões nossas ficam opacas, e também muitas zonas de Deus ficam escondidas – não porque Ele não as queira mostrar, mas porque não nos queremos aventurar nessa profundidade e nessa intimidade com Deus. Não é a confiança de que «isto vai resultar», é a confiança de que estamos bem entregue, doa o que doer, aconteça o que acontecer, venha a resposta que vier.

para rezar

1. Acredito que Jesus é redentor e salvador. Mas o que é que essas palavras significam para mim?

2. O que espero de Deus na minha vida? Que Ele me livre do sofrimento ou que me dê a fortaleza e a graça para continuar a confiar ainda que no meio da tribulação? Como reajo aos meus momentos de Gethsémani, e porquê?

3. A Quaresma é o tempo oportuno para preparar a redenção que a Páscoa nos traz. No passado, qual foi o fruto real dos meus pontos de esforço quaresmais? O que é que posso fazer, em concreto, para que esta Quaresma me prepare ainda melhor para a festa da Páscoa?

Paul Gauguin - The Agony in the Garden.j