amor e angústia

3ª etapa

É o Evangelista São João que nos deixa, ao relatar a Última Ceia, o significado último da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus. Eis o que escreve:

Antes da festa da Páscoa, Jesus, sabendo bem que tinha chegado a sua hora da passagem deste mundo para o Pai, Ele, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim.

– João 13, 1

 

Jesus sabia que a sua «hora» tinha chegado. E o tema da «hora» torna-se a chave de leitura para entender o acontecimento da redenção da humanidade.

o amor de deus: inegável e incondicional

Neste sentido, cabe-nos perguntar: o que movia Jesus a realizar a obra da redenção, isto é, a aceitar o sofrimento que a sua «hora» implicaria? A resposta é dada também por São João: o amor que Deus tem por cada pessoa e que disponibiliza para nós na sua Páscoa. É este o motor de toda a acção de Jesus e o coração do qual nasce a sua obediência filial, o seu amor até ao fim, até à Cruz. A obediência total de Jesus ao Pai reverte a desobediência auto-centrada dos primeiros pais, no Jardim do Éden. Com efeito, amou-os até ao fim.

Ao longo da sua vida terrena, Jesus deu provas constantes do seu amor: a sua proximidade com os discípulos, os milagres e as curas, a libertação de tantos que estavam sob influência do maligno, todos os seus ensinamentos que revelavam o caminho para a felicidade e o significado da vida. Conhecendo bem o coração humano, porém, Jesus sabia que a experiência do pecado havia de turvar o olhar humano, incapacitando-o de reconhecer o amor incondicional de Deus. De facto, não nos é fácil confiar verdadeira e inteiramente que somos amados por Deus: por vezes, porque sentimos que caímos e pecámos vezes a mais; outras vezes, porque a pequena estatura e a fragilidade da condição humana não deixam de nos paralizar; e outras vezes ainda pelo facto de nos determos a pensar que a vida cristã se reduz a uma conquista humana do amor de Deus, como se o seu amor fosse algo que o nosso esforço pudesse alcançar por si só.

É certo que somos frágeis, pecadores, pequenos. Mas nada disso implica que Deus ponha travões ao seu amor, ao seu cuidado, ao seu interesse e envolvimento, à sua graça. Deus não espera a perfeição prévia; pelo contrário, oferece gratuitamente a sua iniciativa de nos curar, redimir e fazer crescer. De tal modo que o seu amor precede sempre o nosso, em iniciativa, em qualidade, em quantidade.

deus: um comprmisso inesgotável

Jesus, Deus feito homem, «sabe bem o que há no homem» (Jo 2, 25) e conhece bem o coração humano e compreende internamente a dificuldade que experimentamos no reconhecer do amor divino. Por isso, oferece-nos como prova algo mais radical ainda que os milagres, as curas e a doutrina que pregava com autoridade. Na realidade, decidiu dar-nos a prova suprema do amor absoluto, infinito e ilimitado: a sua vida – «tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim» (Jo 13, 1).

 

Durante o sofrimento espiritual, moral, emocional e físico da sua Paixão – desde o Jardim do Gethsémani, em que é abandonado e traído pelos seus amigos mais íntimos, à condenação injusta pelo Sinédrio e ao lavar de mãos de Pôncio Pilatos; desde o menosprezo e a humilhação à coroação de espinhos e à crucificação – Jesus amava-nos até ao fim, «até ao extremo», como também podemos traduzir, mostrando que, precisamente no momento em que o mal parece vencer, no momento em que parece sobrevir a torrente de mal que atravessara a história desde a ruptura da confiança no Éden, é justamente aí que o maior amor se revela. Na Cruz, Jesus mostra que é Deus, porque ama com amor divino, porque estabelece e é fiel a um compromisso inesgotável em favor da família humana.

Jesus revela o pai

Mais tarde, na Última Ceia, Jesus dirá a Filipe: «Quem me vê, vê o Pai» (Jo 14, 9). Com efeito, é o Pai que se deixa ver no momento em que Jesus aceita sem retaliar a Paixão e os ataques violentos do mal,  sem nunca condenar os que o perseguem, sem sequer alterar o olhar cheio de bondade e amor que caracteriza o seu rosto desde o seu nascimento.

 

São Pedro descreve-o na sua Primeira Epístola:

Cristo sofreu por nós, deixando-nos o exemplo,
para que sigamos os seus passos.
Ele não cometeu pecado algum,
e na sua boca não se encontrou mentira.
Insultado, não respondia com injúrias;
maltratado, não respondia com ameaças;
mas entregava-se àquele que julga com justiça.

Suportou os nossos pecados no seu corpo sobre o madeiro da Cruz,

a fim de que, mortos para o pecado, vivamos para a justiça.

Pelas suas chagas fomos curados.

– 1 Pedro 2, 21-24

E Paulo complementa:

De facto, quando ainda éramos fracos é que Cristo morreu pelos ímpios. Dificilmente alguém morrerá por um justo; por uma pessoa boa talvez alguém se atreva a morrer. Mas é assim que Deus demonstra o seu amor para connosco: quando ainda éramos pecadores é que Cristo morreu por nós.

- Romanos 5, 6-8

Um coração atribulado

O desejo de nos dar uma prova suprema do amor incondicional de Deus por cada um de nós, uma prova que prevaleceria ao teste do tempo e que seria suficientemente forte para afastar suspeições, medos e dúvidas, estava, de facto, no coração de Jesus enquanto suportava a Paixão e a Morte. No entanto, isso nao era tudo: no coração de Jesus havia mais, como recorda São João.

Jesus perturbou-se interiormente e declarou: «Em verdade, em verdade vos digo que um de vós me há-de entregar!»

– João 13, 21

Não é a primeira vez que São João nos deixa pistas para podermos perceber a tribulação que atravessava o coração de Jesus, a sede da sua identidade. No Capítulo anterior, já nos tinha descrito o momento em que Jesus anuncia a Paixão, logo depois da sua entrada triunfal em Jerusalém no Domingo de Ramos, ainda as multidões gritavam Hossana.

Agora a minha alma está perturbada. E que hei-de Eu dizer? Pai, salva-me desta hora? Mas precisamente para esta hora é que Eu vim! Pai, manifesta a tua glória!»

– João 12, 27–28

 

Ainda antes de o seu corpo a sinalizar, a angústia de Jesus é notória não apenas no coração, mas também na mente e na alma de Jesus, que sabe o que o Pai lhe pede – a redenção do mundo pelo assumir em si mesmo da culpa e do pecado dos homens. A agonia que sabe que o espera fá-lo estremecer.

Os outros evangelistas também se detêm diante da tribulação a que Jesus se sujeita, ao relatarem a oração que Jesus faz no Gethsémani, imediatamente depois da Última Ceia.

 

Tomando consigo Pedro, Tiago e João, começou a sentir pavor e a angustiar-se. E disse-lhes: «A minha alma está numa tristeza mortal; ficai aqui e vigiai.» Adiantando-se um pouco, caiu por terra e orou para que, se possível, passasse dele aquela hora.

– Marcos 14, 33-35

 

Cheio de angústia, pôs-se a orar mais instantemente, e o suor tornou-se-lhe como grossas gotas de sangue, que caíam na terra.

– Lucas 22, 44

 

Amor e angústia – eis a melodia que se ouvia no coração de Jesus durante a Paixão. Um amor infinito por cada um de nós, que intensifica sem medida a sua angústia diante de todo o estrago que o pecado tinha feito e continuaria a fazer na humanidade. Amor e angústia – duas das experiências humanas mais profundas, que Jesus faz inteiramente suas.

O amor e a angústia, na realidade, são a chave de leitura para que possamos compreender devidamente tudo o que Jesus ensina e toda a graça que faz descer sobre nós, nesta nossa contemplação de Quaresma.

para rezar

1. Na sua Paixão, Jesus amou-nos «até ao extremo». Como reajo quando oiço o descrever o amor de Deus como ilimitado e incondicional? Qual é a raiz dessa minha reacção? Tiro um momento para falar com Deus sobre isto.

2. Em que circunstâncias me é difícil confiar no amor de Deus? Porquê? O que terá Jesus a dizer sobre isso? Pergunto-lhe.

3. Nos seus dias neste mundo, Jesus experimenta angústia e sofrimento. Como é que a consciência que tenho deste facto me pode ajudar a redifinir a minha própria experiência de angústia e sofrimento?

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