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os dons da última ceia

4ª etapa

As primeiras palavras de Jesus durante a Última Ceia, segundo São Lucas, revelam que há ainda mais no coração de Jesus, além de amor e angústia, que contemplávamos na etapa anterior. Eis o que nos diz São Lucas:

Quando chegou a hora, pôs-se à mesa e os Apóstolos com Ele. Disse-lhes: «Tenho ardentemente desejado comer esta Páscoa convosco, antes de pacedecer».

– Lucas 22, 14-15

desejar com desejo

No texto grego original, as duas palavras «desejei ardentemente» são, na realidade, a mesma palavra, uma vez usada como verbo, outra vez usada como advérbio. O termo é epithymia e significa um desejo que vem de dentro, do mais profundo, da sede da identidade, do coração; dá conta do tipo de sentimento que vem do núcelo fundamental da alma. Usando o mesmo termo duas vezes seguidas, as Escrituras estão a dizer-nos que Jesus está embrenhado nos acontecimentos da Última Ceia de alma e coração.

A opção «académica» de usar termos distintos – desejar ardentemente – prende-se com uma tentativa de comunicar a intensidade com que Jesus viveu estas horas. A estranheza de uma tradução mais litearal – com desejo desejei – dá conta da mesma estranheza que atravessava o coração de Jesus no encontro com os seus discípulos de então, e connosco.

o antigo e o novo

Uma pergunta permanece: por que razão Jesus desejava ardentemente passar com os discípulos esta Páscoa em particular? Durante a Última Ceia, Jesus modifica o ritual da Páscoa judaica, mostrando com clareza que o sacríficio do cordeiro pascal que comemorava a libertação da escravidão israelita no Egipto era, na realidade, uma imagem que prefigurava o sacríficio de Cristo na Cruz, que libertaria da escravidão do pecado e da morte.

Em certo sentido, toda a experiência do povo escolhido ao longo do Antigo Testsamento prefigura e prepara o Novo Testamento, de tal modo que o próprio Cristo é o cumprimento das promessas da Antiga Aliança, estabelecendo a Nova Aliança com o seu Sangue, aliança essa que de todos os crentes fará filhos. É a isso que João se refere no início do seu Evangelho:

 

Mas, a quantos o receberam, aos que nele crêem, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus. Estes não nasceram de laços de sangue, nem de um impulso da carne, nem da vontade de um homem, mas de Deus.

– João 1, 12-13

A Última Ceia está em conexão íntima com este sacrifício da Nova Aliança, o que podemos ver por meio dos três dons específicos que Jesus nos deixa nesse momento, dons que permitem a nossa participação real na redenção, dons pelos quais a vida de Cristo em nós é alimentada, renovada e protegida. E talvez tenha sido por causa destes três dons, podemos especular, que Jesus desejou ardentemente comer esta Páscoa com os Doze, porque sabia que haveria de lhos deixar.

i. dando-se a si mesmo

O primeiro destes dons é a Eucaristia. É durante a Última Ceia, por meio da consagração do pão e do vinho no seu corpo entrege e no seu sangue derramado, que Jesus estabelece a conexão entre o ritual antigo da Páscoa, o banquete celeste e a celebração da Eucaristia. Na Missa, com efeito, passado, presente e futuro tornam-se contemporâneos. Escreve São Mateus:

Enquanto comiam, Jesus tomou o pão e, depois de pronunciar a bênção, partiu-o e deu-o aos seus discípulos, dizendo: «Tomai, comei: Isto é o meu corpo». Em seguida, tomou um cálice, deu graças e entregou-lho, dizendo: «Bebei dele todos. Porque este é o meu sangue, sangue da Aliança, que vai ser derramado por muitos, para perdão dos pecados. Eu vos digo: Não beberei mais deste produto da videira, até ao dia em que beber o vinho novo convosco no Reino de meu Pai».

– Mateus 26, 26-29

 

Tal como os israelitas do Antigo Testamento se alimentavam do cordeiro pascal e ungiam a padieira das portas com o seu sangue, também nós somos chamados a tomar parte no corpo e no sangue do Cordeiro de Deus, recebendo a Eucaristia. E sempre que, na Missa, recebemos dignamente a Sagrada Comunhão, trazemos a obra redentora de Deus para o mais profundo de nós mesmos e para o mundo em que habitamos. A obra de salvação chega ao seu cumprimento no Calvário, de uma vez para sempre. Mas, por meio de nós, na medida em que vivermos em íntima união com Jesus pela Comunhão, a salvação continua a espalhar-se por toda a terra.

II. erguendo uma ponte indestrutível

O segundo dom que recebemos na Última Ceia é o sacerdócio. Com efeito, depois de Jesus ter consagrado o pão e o vinho no seu corpo entregue e no seu sangue derramado, antecipando o sacrifício da Cruz, diz aos Apóstolos: «Fazei isto em memória de mim» (Lc 22, 19). Com estas palavras, Jesus transmite aos Doze o poder e a responsabilidade de celebrar a Eucaristia, e de ordenar outros para fazerem o mesmo.

 

Assim, por meio da presença dos sacerdotes, a Igreja de todos os tempos e de todos os lugares recebe de Jesus uma contemporaneidade imediata com a última ceia, com a crucificação, e com a Ressurreição.

III. lava-pés: construindo o reino

O terceiro dom que Jesus nos deixa é o novo mandamento do amor, que vem envolvido com a promessa da unidade: quem guarda os mandamentos, permanece em Jesus, como os ramos na videira. E eis como Jesus explica o mandamento novo:

É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei. Ninguém tem mais amor do que quem dá a vida pelos seus amigos. Vós sois meus amigos, se fizerdes o que Eu vos mando.

– João 15, 12-14

Com efeito, por meio dos sacramentos, Jesus permite que a sua própria vida divina e a sua graça redentora se envolva nas nossas vidas e as transforme. Em seguida, convida-nos a tomar parte nessa graça e nessa sua missão escolhendo amar como ele ama. A graça não é magia: é uma participação real na vida de Cristo, de tal modo que o fruto que ela pode dar em nós e no mundo que nos rodeia depende da nossa cooperação, da nossa decisão livre de amar como ele ama.

É neste contexto que ganha pleno sentido o gesto inesquecível de Jesus na Última Ceia, que toma o último lugar ao lavar os pés dos seus discípulos. Somos, também nós, chamados a constuir o Reino em nós e no mundo seguindo o exemplo de Jesus, que com uma humildade a toda a prova, serve os seus discípulos ao executar a mais baixa tarefa reservada ao escravo menos reputado. O próprio Jesus explica o que pretende:

Depois de lhes ter lavado os pés e de ter posto o manto, voltou a sentar-se à mesa e disse-lhes: «Compreendeis o que vos fiz? Vós chamais-me 'o Mestre' e 'o Senhor', e dizeis bem, porque o sou. Ora, se Eu, o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. Na verdade, dei-vos exemplo para que, assim como Eu fiz, vós façais também. 1Em verdade, em verdade vos digo, não é o servo mais do que o seu Senhor, nem o enviado mais do que aquele que o envia. Uma vez que sabeis isto, sereis felizes se o puserdes em prática.

– João 13, 12-17

para rezar

1. O que é que significa na minha vida o lava-pés? Em que circunstâncias me é difícil servir? Quem é o irmão a quem sou chamado hoje a lavar os pés? Falo com Deus sobre essas situações e sobre essas pessoas.

2. Com que profundiade é que acredito que Jesus escolheu tocar a minha vida com a sua graça de uma maneira objectiva mediante o ministério sacramental do sacerdócio?

3. Que papel tem a Eucaristia na minha vida? Que papel é que quero que a Eucaristia passe a ter? Falo sobre isso com Deus, lembrando como vivi estes tempos em que o confinamento me forçou a estar longe da comunhão e da Missa.

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